O que é que se escondia, realmente, no coração do povo para que ele dissesse aquilo que encontramos no versículo 2?

Ageu 1:1-2

“Este povo diz: Não veio ainda o tempo, o tempo em que a casa do SENHOR deve ser edificada.” Isso deve ter sido algo que os israelitas conversavam entre si quando o assunto do templo era discutido. Mas não era a verdade. Essa razão era apenas um pretexto para não se colocarem diante de sua responsabilidade. A própria presença deles em Jerusalém, após o decreto de Ciro para reconstruir o templo, provava que era isso que eles tinham que fazer.

Oposição e falta de fé

Como podia ser que os israelitas, que haviam começado o trabalho com alegria, agora vinham a dizer que o tempo não veio? Essa declaração escondia duas coisas.

Primeiramente, eles disseram isso pelo desencorajamento que tiveram com a oposição que enfrentavam diariamente. Faltou fé e eles pensaram que não veio o tempo de edificar a casa do Senhor.

No entanto, sua fé deveria ter sido sustentada pela palavra de Deus; entre outras, pela passagem de Isaías que predisse o retorno do povo sob o rei Ciro, bem como a reconstrução do templo. O fato de essa profecia ter se realizado, junto à ordem clara de Ciro para edificar a casa, deveria ter sido um encorajamento para eles. Mas, face à oposição, a disposição alegre do início sutilmente deu lugar ao desencorajamento. Sim, faltou fé.

Seria essa experiência algo estranho para nós?

Por vezes, imaginamos que não teremos nenhum obstáculo se for verdadeiramente da vontade de Deus que uma coisa seja feita. Mas isso é não compreender nosso inimigo. Basta olharmos para o andar do nosso Senhor Jesus e a forte oposição dos principais do povo contra si. Mas isso não o impediu de cumprir a obra para a qual ele veio. Se essas coisas aconteceram ao nosso Senhor, quanto mais a nós. “Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia. [...] Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa. Mas tudo isto vos farão por causa do meu nome” (João 15:19-21).

O inimigo sempre irá se opor ao trabalho que Deus faz. Se compreendemos bem isso, saberemos também que a oposição não é um sinal de desaprovação. É também por isso que é muito importante, em qualquer serviço para o Senhor, de andar pela fé.

Por que é necessário este exercício da fé? Porque quando as dificuldades vierem, e a nossa fé for provada, então também teremos a perseverança da fé, confiando no Senhor para que o serviço seja feito apesar das dificuldades. Essa energia da fé nos elevará acima das ondas do mar revolto, para olhar confiantemente para o Senhor. Mas se avançamos sem a inteira certeza de fé, quando a tempestade atacar, nós também diremos, enfim, que não é o momento de agir, e cessaremos nossa tarefa.

Sem a fé, o trabalho não pode progredir. É o que se sucedeu com o povo de Israel, e é o que acontecerá conosco se não andarmos pela fé em tudo que fizermos para o Senhor. Só a fé pode triunfar sobre a oposição do inimigo da obra de Deus.

Assim, essa declaração escondia primeiramente sua falta de fé em Deus, que também lhes trouxe desencorajamento.

Interesses pessoais

Mas a palavra deles escondia também uma segunda coisa, ainda mais importante. Era que seus corações paulatinamente encontraram interesses em outra parte. Se no tempo dos Juízes cada um fazia o que parecia reto aos seus olhos, agora podemos dizer que eles procuravam, cada um, seus próprios interesses.

Refletindo nisso, podemos nos perguntar se a parada forçada dos trabalhos pelos inimigos do povo não foi ao mesmo tempo uma disciplina permitida por Deus por causa de sua atitude e por causa de sua falta de zelo para edificar a casa.

O verdadeiro problema era a disposição do coração. E é ainda o mesmo problema hoje. Paulo escreveu que “todos buscam o que é seu, e não o que é de Cristo Jesus” (Filipenses 2:21). Se era verdade nos tempos de Paulo, ainda o é hoje! Tenho eu o coração nos interesses de Cristo como Paulo tinha? Minha vida inteira, minhas escolhas, meus pensamentos, minhas ações, mostram que eu tenho os interesses de Cristo no coração?

Se perdemos de vista a vinda iminente do Senhor e o fato de que, apesar das dificuldades, ele ainda trabalha ativamente na edificação da sua Assembleia, então nossos corações se interessarão nas coisas que são da terra. “Onde estiver o vosso tesouro, ali estará também o vosso coração” (Mateus 6:21). Nosso inimigo, o diabo, fará de tudo para parar o trabalho na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo. Se a oposição é um método frequentemente eficaz, um outro é o de desviar o coração para as coisas da terra. Conforto, prazer, política, divertimentos, esportes etc., assim como desfrutar do tempo presente.

Se nós não estamos ocupados com o trabalho que o Senhor está realizando ainda hoje, então nossos corações — que não podem ficar vazios e ociosos — se ocuparão de outras coisas. E também diremos o mesmo que disseram os israelitas no tempo de Ageu, que não é o tempo de edificar; e cairemos na mesma armadilha.

Em resumo, a razão proposta pelo povo não era senão uma escusa para sua falta de zelo na obra de Deus, e para esconder a busca de seus próprios interesses.

Os recursos da graça

Antes de terminar estas poucas reflexões, ainda nos resta responder a uma questão importante sobre os israelitas que, aos poucos, se desencorajaram. Faltou a graça de Deus para vencer a oposição e continuar em frente? Não. Os recursos da graça não faltaram, mas a fé, ela sim, faltou; e faltou por causa de seus interesses pessoais que entraram em conflito com o que Deus lhes havia chamado a fazer.

Se nós temos verdadeiramente o desejo de sermos úteis nas mãos do Senhor, nestes últimos instantes até Sua vinda, e se sentimos toda nossa incapacidade: a graça está pronta para nos ajudar! E o Senhor irá nos utilizar na medida em que somos santificados e o deixamos agir em nossa vida.

Mas se não há verdadeiro desejo ou, podemos dizer, se o coração está morno — nem sim, nem não, mas meus confortos, meus direitos, meus bens —, então os recursos da graça não servirão de nada. Ainda que estejam sempre à nossa disposição, não os desejaremos porque, na verdade, nossos corações não estarão interessados de fato em realizar a obra de Deus. É a mornidão de coração que o Senhor não podia suportar na assembleia de Laodiceia, cujo nome significa “direito do povo”.

Portanto, os recursos da graça estão ainda disponíveis para avançarmos vitoriosamente no serviço da obra. Mas o desejo de servir ao Senhor e de fazer o que ele nos demanda deve estar em nós. É então que os recursos da graça estarão à nossa disposição para suprir o que nos falta.

Em resumo

Embora ainda fosse o tempo para Israel edificar o templo do Senhor, sua falta de fé e seus interesses pessoais os levaram a dizer que não era o tempo de edificar.

E quanto a nós? Pensamos também que não é mais tempo de edificar? O Senhor nos colocou à disposição todos os recursos da graça. Todas as promessas e os encorajamentos de Sua Palavra são ainda presentes e verdadeiros para nós hoje a fim de nutrir a nossa fé. Que razão nos resta para não servir ao Senhor com zelo? Nos últimos instantes antes de Sua vinda, o Senhor nos encoraja a confiarmos nele e a entrarmos na graça que se encontra nele.

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